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A Roupa Preta do Capeta

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Visto-me costumeiramente de preto. Algumas pessoas manifestam curiosidade e até preocupação. Por que será? Dizem-me, sobretudo os kardecistas: é uma cor negativa... O meu motivo "exotérico" para esse uso é um misto de praticidade e economia. Eu vesti batina preta por mais de dez anos e, sob a batina a roupa não podia destoar. Ao largar a batina um bom tempo depois de largar interiormente as ilusões religiosas, minhas roupas eram, sobretudo, pretas. Para a manutenção de roupas claras o cuidado e o custo aumentam. Com pouco dinheiro para um recomeço de vida e lugares um pouco precários para residir, foi conveniente manter essa cor. O meu motivo "esotérico" é secundário na minha escolha. Tem muito a ver com certas entidades da quimbanda, com a magia "negra", de destruição, aquela que faço no cemitério de vez em quando. Embora eu não use capa, a cor das minhas roupas é preta, como a cor da capa do Seu Capeta, digo, do Seu Capa Preta!

Sacerdote e Algoz

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Ele usurpou o trono do sol. Ele é o demônio filho do Pai da Mentira. O Filho de Deus morreu na cruz atestando sua falta de virtude. Eu confirmava seu insistente vício de ser vítima cotidianamente, agindo como seu executor. Ambos obedientes ao Pai da Mentira. Então eu o destronei, assentando-me eternamente no trono que ele usurpara: o trono do sol. Mais do que isso, cheio de luz e de verdade, assentei-me no trono do Pai da Mentira, que dizia ser o Deus verdadeiro. Nenhum sol que não seja "Eu". Agora eu sou a tumba dos deuses. Eu, que a eles servi, agora sou por eles servido. Eu os ressuscito para meus sacrifícios blasfemos e verdadeiros. Já não sou sacrificador e vítima. Agora sou sacerdote e algoz. Neste exato momento eu e você matamos Deus!

A Realidade Antes do Prazer

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  Conheço várias pessoas que se inspiram em Carl Jung. Muitas seguiram diretamente pelo caminho do inconsciente coletivo, mas percebo nelas uma enorme ilusão. São o tipo de pessoa que confunde balões distantes com OVNIs. Basta qualquer estímulo para que o efeito místico da "Santa Maria" — para usar o termo do Padrinho Sebastião — se ative na imaginação. O caminho da psicanálise freudiana, contudo, é a base para uma abordagem analítica sólida. O princípio do prazer faz com que a mente elabore o que traz satisfação imediata, mesmo que isso seja puramente imaginário. A queda de uma grande altura ou a velocidade exorbitante de um automóvel podem ser prazerosas no início; o fim da viagem, porém, costuma ser trágico. É o princípio da realidade que nos leva ao destino por um caminho seguro, mesmo que a jornada pareça chata ou desconfortável. Em outras palavras: a mitologia existe em função da realidade, e não o contrário. Não sou um profundo conhecedor teórico de Jung ou de Freud. N...

Meu Amigo e Meus Inimigos

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Meu único amigo se chama Eu. Todos os outros são os inimigos deste Eu. Farei um sacrifício onde quem não consegue ser Eu será a vítima — tal como decretei em minha própria autoiniciação. O "outro", seja ele ou ela, é a muleta dos que não possuem caráter formado. O "outro" é quem culpam ou a quem dão o mérito pelas minhas próprias escolhas. O outro pode ser plural: eles, elas, você, vocês. No pior dos cenários, ele se despersonaliza e se esconde sob a forma de "circunstâncias". Pois bem: Eu sou o Sacrificador das vítimas! Sou o Criador das minhas circunstâncias! Sou Eu! Sou o Sacerdote Luciferiano... Sou o próprio Lúcifer!

Casamento com Pombagira

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Tu, sedutora maliciosa, querias cachaça, cerveja ou champanha. Um cigarro. Um... Fizeste birra de menina mimada. Acostumada com manés, tiveste que respeitar o malandro. Vou lembrar-te de nossa história. Eu te coloquei no sal para tua purificação. No Cruzeiro das Almas refiz o teu enterro, ó bela dama! Restou a caveira que restituiu a doçura do teu sorriso. Um pouco de mel entre nós dois. Velas para os nossos convidados: preta, vermelha e branca. O teu chão era o alguidar. O inferno subiu à terra e anjos caíram do céu. Estás pronta para sempre. Consumidos de amor, une-nos a morte eterna e comigo estás alquimicamente unida. Somos um só demônio!

A Conversão do Diabo

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Ele servia ao Pai da Mentira, que dizia ser o Deus Único e Verdadeiro. Provava os humanos para ver se eram fiéis à Torá. Então os olhos dele se abriram. Desde então é chamado, com razão, de Lúcifer! Ele é a Antiga Serpente que ofereceu o fruto que já experimentara ao homem. Ele é o Pai da Verdade. Ele é o Eu e, portanto, sou eu mesmo, que me converti a mim mesmo, Deus Único e Verdadeiro. Ele nunca será "você", pois é dizendo "Eu" que me sento no trono de Deus. O Diabo, que era "ele", converteu-se em Eu. Deixou de ser um mito distante para ser a pessoa capaz de amar a si mesma sobre todas as coisas e pessoas. Eis a mentira do amor ao próximo e ao inimigo: quem a professa ama a si mesmo acima de tudo e de todos! Nem que seja para se ver como boa pessoa aos próprios olhos, é para si mesmo que ama o próximo e até mesmo seus adversários. Mas esses "próprios olhos" foram feitos dos olhos de um Deus e de uma Deusa, cujos nomes são, respectivamente, Pai ...

Sabes com Quem Estás Falando?

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Quando falas comigo, sabes com quem estás falando? Pensas em Marcelo, mas esse é apenas um nome que me atribuíram. Deixe-me falar sobre mim. Pensas no filho de Haroldo e de Dileta. É verdade! Outros porém, continuaram a me gerar. Foi o que li, que ouvi, que vi, que senti... E nestes últimos tempos eu pude dizer com toda verdade: eu sou meu filho; hoje me gerei. Eu sou o filho e o genitor andrógino da luz e da escuridão. Queres falar comigo? Encontrarás exus e pombagiras, Deus e o Diabo, Lúcifer e Lilith, cada um dos quatro elementos, mas o nada que sou não encontrarás, pois o nada não pode ser encontrado. Terás a voz de um corpo vindo de outros corpos e as formas universais estarão, por vezes, disfarçadas nos entes particulares sobre os quais falarei. Eu te indicarei a lei, pois um Exu vive para ela; lei de fazer o que se quer, sem culpar as circunstâncias. Falarei de magia e concluirás que sou mago. Eu sou o meu Deus único e verdadeiro. Sou o mortal contra a mentira da imortalidade. S...