Os Donos Estão Por Aqui
Eu vivi na mata por uma dezena de anos. Num mosteiro, como hóspede, árvores nativas e outras plantadas estavam ao meu redor. Brancos invadiram essas terras e as revenderam aos descendentes (brancos) dos invasores. Seus donos arquetípicos, porém, nunca se venderam.
Pretos e pretas velhas com pinga e pito também encontrei. Trabalham para os invasores, mas não os considero invasores. Carregam a ira do quimbandeiro — ou qualquer nome que se dê aos que trouxeram magias da África. Estão presos na escravidão da adoração ao demônio dos brancos. Sua libertação, contudo, tem que ser um retorno aos seus próprios deuses e mistérios ancestrais.
Caminhando na mata, percebi que ela é o grosso muro da prisão em que vim morar. Encontrei também os índios, puros ou miscigenados. Esses podem viver aqui com riqueza ou pobreza, mas não são os donos daqui. Os donos desta terra não estão conscientes ou materialmente vivos; eles são chamados de caboclos na umbanda. E são milhares ou até bem mais. Basta olhar para além dos olhos na mata à beira das estradas.
Olhei muito além dos meus olhos, a poucos metros de mim. Eles, invisíveis e dados como inexistentes, estão mais vivos e presentes do que nós. Eu vi suas crianças brincando e observando. De outras eras, aqueles que outrora guerreavam entre si reuniam-se com os Puris, Coroados e Coropós daqui; uma assembleia dos vivos na morte! São eles também a fumaça, o sopro e o chá.
Tenho preferido, porém, ser habitado só por mim mesmo! Afinal, eu também sou a fumaça, o sopro e o chá!

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